novembro 20, 2009
Uma fresta na procissão do sol

Há dias em que o sol se põe e apresenta uns aparentemente inexplicáveis laivos de verde. Um cientista amigo de um lírico antecipou-se e explicou tudo bem explicadinho: o fenómeno é o efeito de prisma provocado pelas camadas da atmosfera. É assim que o dia termina - com a decomposição da luz, momentaneamente revelada como uma espécie de glitch in the matrix. Uma fresta na procissão do sol, como se o cair do pano nos revelasse qualquer coisa do foro íntimo da natureza.
Quando o Pedro Adão e Silva me convidou para escrever aqui há 5 anos e qualquer coisa atrás, havia várias coisas que eu não antevia - a mais persistente das quais, que passados 6 anos desde o início deste blog, hoje assinalados, viesse a haver tanto para revelar pela fresta de um sentimento comum. Da mesma forma que a natureza se acusa em cores inexplicáveis, também nós deixámos aqui um bocadinho de nós pela fresta da confissão ou do estilo, munidos daquilo que formou cada um de nós e se foi sobrepondo. Talvez por vezes nos tenhamos distraído e deixado essa fresta escancarada (no meu caso tenho a certeza disso). No regrets.
Há uns anos, o Pedro descrevia o momento em que descobriu que era possível escrever acerca de surf e fazê-lo de uma forma habitualmente menos tentada. 6 anos depois, só lhe posso agradecer a descoberta.
Obrigado aos que decidiram vir cá espreitar (pela fresta, que eu não me canso desta metáfora). Voltem sempre.
Sim; às vezes as ondas são só um lugar-comum
Drifter Trailer from Poor Specimen on Vimeo.
"We dream with the perfect wave, the perfect job, the perfect house.When we get there...we dream with something else".
Ainda bem.
novembro 17, 2009
Mundo Perfeito #47

O trabalho começa lentamente a regressar ao sítio e, com isso, regresso ao surf.
(imagem roubada daqui. vale bem uma visita.)
novembro 07, 2009
CATA

Foi há meia dúzia de anos no parque de estacionamento em Carcavelos, os ponteiros do relógio indicavam sete da tarde, enquanto o céu já indicava noite escura. Acabo de arrumar as câmaras e objectivas e estou quase a entrar no carro, quando ela aparece. O primeiro pensamento que me veio à cabeça: a Catarina foi assaltada e agredida por um bando de delinquentes. “Nada disso” explicou ela ao mesmo tempo que implorava que não a fizesse rir para não correr o risco de abrir os pontos que tinha levado na boca. O rosto inchado como só fica o de quem foi brutalmente agredido, um dos lados todo negro, a Tetracampeã Nacional de Bodyboard de feições delicadas e ar doce, estava irreconhecível e tinha outra explicação para os hematomas que lhe cobriam boa parte da face: “Foi a surfar ontem aqui, encaixei num tubo e não sei o que aconteceu, mas fui projectada contra o fundo e bati em cheio com a cara. Tive que ir para o hospital de fato vestido e tudo. Cheguei lá e só me ria, os médicos já se estavam a passar comigo!” (risos) “Ai! Ai! Não me posso rir!” Continue a ler "CATA"
novembro 05, 2009
Brian Bielmann
“The macho photographers who shoot fisheye, they’re all impressed by the heaviest situation,” Mr. Bielmann said. “But I don’t see it that way. I don’t look for how hard a photo was to get, I just look at the end result.”
No tempo em que parece que tudo se resume ao maior aéreo, a maior onda, o maior claiming, é bom ver o trabalho de um mestre da fotografia de surf reconhecido pelo New York Times. As fotografias estão aqui:
http://lens.blogs.nytimes.com/2009/09/21/showcase-54/
outubro 30, 2009
Então a voz

Então a voz passou por cima
do oceano
e era um som de vagas
o mesmo som ouvido nos verões
quando a luz sobre a pele
se transformava em água
outubro 29, 2009
A sério que gostei.
Este vídeo lembra-me um verso muito pouco citável de um rapper português que passo a citar: "ginásio não dá colhões."
Eu cá gostei.
Uma competição organizada em condições difíceis que obrigaram a fazer escolhas difíceis numa região - Peniche - com características difíceis de encontrar no resto do planeta e únicas no continente europeu.
Ondas que acrescentaram uma página à história do surf mundial num continente onde nunca antes se tinha surfado ondas assim. Só faltou mesmo fazer mais dias de competição em Supertubos, mas quem dera a muitas provas terem um back-up como os Belgas, o Lagido ou o Molhe Leste.
Milhares e milhares de pessoas presentes na praia todos os dias. Um público que sabia o que estava a ver e, ao contrário da maioria dos públicos, foi tanto mais exuberante por isso - e foi assim com o Owen Wright no outside ou a lenda Martin Potter no areal.
Uma porta escancarada para este mercado cujo retorno é cada vez maior. Argumentos desarmantes para vir a incluir uma nova etapa europeia no World Tour (ou substituir a etapa-problema de Mundaka) e, não menos importante, o facto de hoje - nós, europeus - aliarmos às condições naturais a capacidade de produzir atletas de excelência.
Um país que toda a gente - surfistas, comentadores anónimos ou gente que não faz surf de pé - sabe ser o melhor que a Europa tem, pelo menos no que toca a combinações felizes de sol, ondas e massa humana.
Se tivessem todos mais juízinho, deixavam-se do bota abaixo proverbial e viam as coisas como elas são. Fez-se história e fez-se cá. Os galácticos partiram pranchas, levaram um banho de humildade e viram-se intimidados como há muito não acontecia - tudo aqui na santa terrinha. Onde nada, mas mesmo quase nada acontece. E isso, meus caros, devia dar-nos um orgulho do caralho. Independentemente de se terem cometido erros, independentemente de nem tudo estar bem no surf português... yada yada yada. The Search is over - e o resto é conversa.
outubro 27, 2009
Feliz cantinho à beira mar plantado

Hoje é um daqueles dias em que apetecia ir esperar alguém ao aeroporto, se esse alguém não fosse uma onda e essa onda não quebrasse na nossa costa.
Foto: Ricardo Bravo
Bendito o fruto do vosso ventre
Supertubos. Finalmente. De hoje, sobra o mais importante, o que ali nos levou, as ondas e o surf. Sem mais conversas: esqueçam as lycras, os vencedores e os vencidos, as buzinas de heats e as contas para o título. Interessam as formas concretas e os estados de alma: a onda mutante de Martinez, a improvável redenção de Parko em Portugal, a excelência em estado liquido de Jordy Smith, a nesga de génio por onde saiu Owen Wright num tubo branco e, sobretudo, a entrega assombrosa de Fanning naqueles esplêndidos túneis de luz ao final de tarde. Cada um destes momentos terá uma história própria por contar mas, para já, só me quero lembrar dos instantes em que o horizonte ficou negro com a dimensão das ondas, da fúria com que estas desabaram na areia e das linhas memoráveis que ali foram desenhadas por alguns dos melhores surfistas do mundo.
Bendito o fruto do vosso ventre, Supertubos.


