
Na sua autobiografia, “Pipe Dreams”, Kelly Slater diz que só houve dois filmes que retrataram o surf de modo adequado: Apocalipse Now e Big Wednesday. Com a intuição certa que o caracteriza, Slater afirma que, em ambos os casos, o surf surge como algo que, simultaneamente, apaixona e contamina as vidas dos protagonistas, sendo que estes estão dispostos a arriscar a “pele” por isso. Mais importante, nenhum dos filmes trata o surf ou os surfistas através de estereótipos apatetados.
Na verdade, Apocalipse Now e Big Wednesday são duas excepções que mostram o surf como ele é. Todas as tentativas feitas para envolver o surf em produções de Hollywood têm sido um enorme desastre. Nem é preciso recordar as aparições de Jimmy Slade (aka Slater) na série Baywatch, basta pensarmos em North Shore – Desafio no Havai, Point Break com o rei dos canastrões, Patrick Swayze, ou no mais recente Blue Crush para corarmos de vergonha com a imagem que o cinema constrói do surf e dos surfistas. O que é menos sabido é que por detrás das duas excepções encontra-se o mesmo homem, John Milius, membro destacado da geração de ‘movie brats’ (de que fizeram parte Coppola, Scorcese, Lucas, Spielberg), que no final dos anos setenta tomou Hollywood de assalto. Milius foi o argumentista de Apocalipse Now e realizador de Big Wednesday. Mas Milius é, antes de tudo o resto, um surfista. É esse o seu código genético e a sua identidade, construída na Malibu do início dos anos sessenta.
A propósito dos 30 anos da estreia de Big Wednesday, a Surfer’s Path regressou ao filme entrevistando Milius. Na entrevista, um conjunto de coisas resultam claras.
A primeira delas é que faz toda a diferença quando os filmes são feitos por surfistas. Isso nota-se em Apocalipse Now, na cena em que debaixo de fogo cerrado e enquanto os helicópteros avançam ao som da “Cavalgada das Valquírias’, a memória da Califórnia leva uns quantos soldados a apanhar umas ondas. É difícil conceber algo de mais contrastante do que o surf e a violência em absoluto do napalm, mesmo ali ao lado. Mas, ainda assim, há naquela cena uma dimensão realista, que a torna provável. Na total privação, qualquer surfista aproveitaria a possibilidade de surfar. E além de que o Vietname foi a “guerra da Califórnia”, o princípio do fim de uma era: a “era dourada”, do crescimento económico e da liberalização dos costumes – que encontrou na Califórnia do final dos anos sessenta a sua quintessência. A partir daí, tudo passaria a ser diferente e que melhor metáfora para o fim desse mundo do que expor a sua agonia em pleno Vietname.
O mesmo é válido para Big Wednesday, tudo ali é revelador do surf como ele é: a obsessão por uma onda mítica, a espera por um swell que faz com que mais nada tenha sentido e, claro, o surf como princípio orientador de toda a vida. A essência do filme é a relação dos surfistas com o mar ao longo das estações. Além de que os personagens são pessoas de carne e osso, com densidade e não os “bonecos” que habitualmente fazem de surfistas no cinema. Não por acaso, é o único filme que envolve surf que diz qualquer coisa mesmo àqueles que não surfam.
Mas provavelmente a razão determinante para que Big Wednesday tenha resistido bem ao desgaste do tempo, prende-se com o modo como usa o surf para lidar com questões essenciais, que estão para além dos namoros à volta da fogueira no fim das férias que enxameiam a praia reflectida no cinema. Não por acaso, Milius reconhece na entrevista que teve duas grandes inspirações para escrever o argumento: as referências mitológicas ao Rei Artur e Moby Dick.
Num caso, a ideia de que, tal como a espada – Excalibur – era feita para um momento especial, também há pranchas que têm uma identidade própria que, revelando-se no tal dia que chegará e será como nenhum outro, acabam por transformar quem as usa. Como se a matéria tivesse existência autónoma, capaz de influir nas capacidades de quem a usa. No outro, a metáfora central de Moby Dick: o espectro do passado empurra-nos para uma busca – para a busca da baleia branca pelo Capitão Ahab – e durante esta, ao longo do caminho, sabemos que chegará um dia em que seremos obrigados a confrontar-nos com todos os nossos medos, com as nossas paixões e obsessões e que só então seremos capazes de mobilizar todas as nossas forças. O dia em que a tripulação do Pequod encontra Moby Dick é, em tudo, igual ao dia em que a ondulação perfeita chega, o Big Wednesday.
No fim, lida a entrevista e recordado o filme, sobra a questão que o Surfer’s Journal colocou aquando dos 20 anos de Big Wednesday: não será o filme apenas mais um exemplo do triunfo do marketing nostálgico da geração de baby-boomers californiana? É claro que é assim, mas para que volte a surgir bom cinema com surf, é preciso também que alguém volte a lançar um olhar nostálgico aos mitos fundadores da cultura de surf.
publicado na coluna Sal na Terra da SurfPortugal
Publicado por pedroadãoesilva em junho 16, 2008 06:05 PM | TrackBackChamada de atenção que só tem uma coisinha a haver com o Slater, já viram quem está em número 2 no power rankings da surfline.com?
Afixado por: Vasco em junho 16, 2008 07:22 PMo homem do surfline so pode tar a gozar com a nossa cara!
Afixado por: Duarte Catela em junho 16, 2008 10:24 PM´bora la organizar um buzinão contra o gajo...
Afixado por: Mané Parafina em junho 17, 2008 11:51 AMcomment3,
Afixado por: name em junho 17, 2008 02:21 PMAinda me lembro que foi numa daquelas "noites de cinema" na RTP 1. Penso até que foi mesmo numa quarta- feira que vi, pela primeira vez, "Os três amigo", na tradução da RTP.
Vi e gravei, em VHS!
Tive foi que me conter para não ver demasiadas vezes o filme. As fitas das cassetes VHS estragavam-se facilmente, e não podia perder aquele filme por nada. Aliás, só o via quando ia alguém lá a casa e o "obrigava" a assistir até ao fim. Ainda hoje, quando alguém vem a minha casa, não vai embora sem o ver... já o tenho em DVD! Penso que é a melhor forma de explicar, o que me leva a programar os próximos dias consoante as previsões do windguru, a trocar assitir a um jogo da selecção ou, a deixar a minha mulher à seca enquanto apanho só mais uma, e só mais uma, e mais uma, e só a última para sair da água.
E do que gosto mais no filme, é que pode ser visto por como um retrato social de uma época marcante da cultura mundial. O argumento e a realização estão optimos. A fotografia é exepcional. E tem altas onda surfadas.
É o filme da minha vida!
Ainda hoje, o filme é actual.