O mar, de novo

No Inverno, o mar corre para nós e o seu tumulto, mesmo longínquo, alcança-nos os sentidos. No Verão, somos nós que caminhamos para o mar e para a sua claridade agitada e horizontal. Hoje, levantei-me cedo e, em frente do sol que nascia, desejei o mar. Imaginei-o em mim e prometi não lhe faltar, obrigando o tempo que me falta a levar-me ao seu encontro. O desejo do mar é como o desejo do corpo: são ambos desejos de infinito. E também nos dois desejamos o nosso desejo deles. Por isso, o que desejamos só nos é dado quando, pela memória, o obtemos uma segunda vez. A memória é um desejo de passado e o desejo é uma memória de futuro. As batalhas do desejo são grandes batalhas navais com o tempo e o mundo: nas suas vitórias há gritos e conquistas; nas suas derrotas, massacres e motins. Dizemos "o mar!" e, nesse dizer, dizemos também os seus perigos, naufrágios, destroços, plenitudes, êxtases e tesouros. O mar e o desejo são cansativos como a vida.
José Manuel dos Santos no Expresso deste fim-de-semana, para continuar a ler aqui.
Publicado por pedroadãoesilva em julho 1, 2008 12:14 PM
| TrackBack