julho 11, 2008

Sonhar com pranchas

Vocês alguma vez sonharam com pranchas? Eu, ontem, sonhei com pranchas. Aliás minto, ontem sonhei com A prancha. A única, absoluta, perfeita. A prancha mágica. Ontem sonhei com ela. Com aquela prancha. A prancha que me faria surfar melhor, completar aquela manobra no limite, tirar a melhor linha da onda, A prancha. Mais do que a capacidade do corpo em executar as manobras, mais do que o talento, ou a vontade, mais mesmo do que os anos de treino – aquela prancha.

Comecei a fazer Bodyboard há 23 anos e houve um momento em que esteve ao meu alcance ser bom a fazer bodyboard. Um momento em que a minha vida se focalizou totalmente nesse objectivo insondável de apanhar ondas e seguir a vontade das marés que acolhem o mundo. Fui bom. Hoje sou bom quando tenho sorte ou quando apanho ondas que gostam de mim. Mas ontem sonhei com a prancha que faria de mim o melhor.

Já tive muitos heróis ao longo da vida, mas nesta coisa de apanhar ondas um dos meus primeiros heróis foi o Keith Sazaki. O Manel disse-me uma vez que a minha fixação no dropknee era uma vontade de me por em pé, mas eu nego. Quando era muito puto, mesmo muito miudo, o bodyboard era a única via de acesso às ondas e ao mar, ao longo do tempo fui evoluindo. Crescer, essa fatalidade. Muitos dos meus amigos de então, a maioria, talvez, fizeram-se surfistas, daqueles de pranchas de fibra. Eu não. Ao longo do tempo o bodyboard foi sempre onde me senti mais confortável, onde me senti mais eu. E o dropknee explica tudo isso.

A fantástica possibilidade de poder estar entre dois mundos, com uma panóplia interminável de possibilidades à disposição era um enorme desafio. Nesse tempo a prancha de bodyboard era o veículo mais versátil na descoberta das ondas, deitado, de joelhos, dropknee, de pé, numa prancha de bodyboard tudo era possível e qualquer onda era possível e o que nos distinguia eram as ondas que apanhávamos, as manobras que fazíamos e o estilo de cada um.

Depois veio a radicalidade. O extremo. A proximidade com a loucura, o para lá de…
Veio teahupoo e a cave e el fronton e a maia. Veio Jaws, Nazaré, Shipsterns. Tudo foi para lá dos limites razoáveis de qualquer cidadão médio e responsável que queria ter uma carreira e constituir família, ser feliz. Não tão feliz como apanhador de ondas profissional, mas feliz.

Um dos Homens do Mar que eu mais admiro é o Laird Hamilton, mas ele é provavelmente o responsável maior por eu ser um surfista de ocasião em vez de um surfista de profissão. A dedicação absoluta e total a uma ideia, a uma actividade, esse comprometimento, extremo… falhou-me.

Quando o mundo das ondas se tornou num show mediático vivido na realidade da maior onda, o pior malho, os extremos dos extremos, o meu surf ficou cada vez mais primário. O meio do Atlântico, um Surf de gozo, protegido de crowds e de géneros, sem exigências, sem tenções.

Eu e a minha prancha e as quaisquer condições que o mundo me queira dar no momento. Mas ontem sonhei com uma prancha. A prancha, vem a caminho…


Publicado por pedroarruda em julho 11, 2008 12:08 AM | TrackBack
Comentários

Estranho...
Tive o mesmo sonho/pensamento ontem.
Faço Bodyboard há 18 anos, sou do Porto e sou viciado em dk.
Para mim os melhores são:
Paul Roach e Aka Lyman (sempre a atirar o tail para fora).

Continuem o óptimo trabalho e apareçam em Leça (dá sempre altas ondas, quando o mar está grande o paredão parece The Wedge).

NLF

Afixado por: NLF em julho 11, 2008 07:23 PM

penso que o dk é na realidade depreciado quando nas ondas certas é uma tonelada de divertimento e uma modalidade extremamente técnica. Estranho até não ver mais surfistas a praticar este estilo, especialmente em ondas mais para bodyboard. Pusesem-se alguns "de joelhos" de vez em quando para seu próprio benefício e talvez se divertissem mais.

Afixado por: antonio sousa em julho 11, 2008 08:30 PM

Acho que se queres continuar a viver protegido de crowd não devias falar de certos spots, pensa nisso!

Afixado por: , em julho 12, 2008 11:18 AM

Espero que consigas ser um apanhador de ondas melhor, com A prancha. E espero que isso te ajude a focar, para poderes partilhar e verbalizar a tua alegria com ela... mas não a focalizar, isso é que não!

Boas ondas (passe a redundância...)

Afixado por: MP em julho 12, 2008 11:56 AM

Todos os autores deste Blog serão sempre bem recebidos no Porto, e além disso toda a gente conhece Leça :)
(Acho o "Localismo" uma estupidez).

Também vou comprar "A Prancha" só para curtir...
Curtam este Post no meu Blog:


ecleticsounds.blogspot.com/2008/07/bodyboarding-break-paul-roach-animal.html


Cumprimentos

NLF

Afixado por: NLF em julho 12, 2008 01:28 PM

Excelente Post
Boas Ondas

Afixado por: Mário Almeida em julho 14, 2008 08:40 PM

finalmente a prancha certa para dropiknezar a maia, ainda não vi nada! até daqui a dias, abraço

Afixado por: brother em julho 15, 2008 08:46 PM

Sou constantemente um brasileiro perdido nesse blog mas, hoje, com esse belo texto e belas palavras, sou um bodyboarder convicto, participante, dessas histórias, fotos, fatos, sonhos..

Abraços, continuem sempre o excelente trabalho.

Afixado por: Lucas em julho 15, 2008 11:22 PM
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