Na Praia desde 68

“Sous les pavés, la plage”, ou numa versão portuguesa irremediavelmente tosca: “debaixo das pedras da calçada, a praia”. Faz este mês quarenta anos que esta frase nos acompanha. Inscrita em murais de Paris em Maio de 68, não é apenas o melhor dos muitos slogans inventados nas revoltas estudantis parisienses, é também a mais exacta das metáforas para o que naquelas semanas se iniciou e que se projecta, ainda hoje, na nossa vida quotidiana. Neste caso – e em todos os outros – praia é para se escrever Praia, com maiúscula. A metáfora por excelência da evasão, do lado mais lúdico, individual e liberal das nossas existências. Sem essa Praia, descoberta debaixo dos passeios do Quartier Latin em Paris, não teríamos as ondas do mar do surf como as temos hoje.
Há, antes de mais, o lado físico e material da expressão. Os estudantes que se rebelavam por força de um mal estar difuso, arrancavam as pedras da calçada e atiravam-nas à polícia, símbolo da “cidade”, da vida sem escapes. É verdade que a revolta já se havia iniciado no campus da Universidade de Berkeley, em plena Califórnia (sempre o mesmo lugar, onde todas as coisas parecem começar), contra a guerra do Vietname; mas foi em Paris que melhor se cruzou a contestação objectiva com a insatisfação com o “homem unidimensional”, circunscrito a um quotidiano cinzento e alienado por rotinas conservadoras. Foi em Paris que se deu uma inversão espectacular da vida real: enquanto se colocava por momentos fim ao enfado, viviam-se tempos de exaltação, sinais subversivos de que outro mundo era possível. O mundo das Praias encontrado debaixo das pedras da calçada.

Depois, é sabido, as revoltas esmoreceram. Primeiro com a clivagem entre estudantes e contestações sindicais; depois, com o refluxo conservador e a vitória da maioria silenciosa de De Gaulle; e, finalmente, porque degeneraram em parte em movimentos terroristas (por exemplo, os Bader Meinhoff e as Brigate Rosse). Mas se na política a herança de um modo ou de outro se foi perdendo, há outra herança que perdura, a da política da vida.
A valorização do lazer e das vidas livres, alternativas e não conformes. A Praia era, é, a melhor metáfora para a reinvenção dos quotidianos. A rebelião da rebentação contra a ordem da cidade; o prazer contra o trabalho; a pureza contra as regras; os corpos contra as roupas e o surf contra os cativeiros.
Quarenta anos passados, é essa a mais valiosa herança do Maio de 68 – a possibilidade de uma liberdade absoluta, necessariamente individual. O mundo das Praias e a vida das Praias, um universo de possibilidades que passámos a ter, arrancado literalmente às pedras da calçada, foi-nos oferecido por todos aqueles que se juntaram em Paris e que ocuparam as universidades. Devemos-lhes isso. No fundo, devemos-lhes as existências que podemos ter hoje: no lazer livre, na sexualidade livre e na liberdade absoluta de surfar ondas no mar. Se ontem disseram “debaixo das pedras da calçada, a Praia”; temos a sorte de poder acrescentar à Praia, o Surf.
publicado na coluna Sal na Terra da SurfPortugal
Publicado por pedroadãoesilva em julho 15, 2008 10:47 AM
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