Ontem, após mais de três meses de ausência, motivada pelo nascimento da minha filha e pelas emoções e comoções próprias de uma gravidez e de um parto, ontem, dizia eu, regressei ao mar. Julgo que em quase vinte e cinco anos de ondas, este foi o período mais prolongado que estive sem ir à água. Sem ondas, sem mar. A causa em si é maravilhosa e todas as alegrias e dores de um nascimento são razão de um enorme contentamento. A ausência de mar custa mas não é, em si mesma, penosa. Porém o regresso é único. Num dia indistinto, nem clássico nem particularmente mau, um mar já de Verão, com ondas suaves e uma brisa leve de onshore. Dir-se-ia que o ideal para saciar a fome de um sem-mar. Já de sobreaviso, dedico cinco a dez minutos a tentar esticar músculos "inesticáveis". Desenferrujar o impossível de ser desenferrujado. Quando me lanço á agua, há uma mistura de imenso prazer com enorme dor. Passar a mínima rebentação é uma tarefa hercúlea, um suplício. O corpo aprisionado no fato quase que grita de desconforto, angústia e sofrimento. Quando finalmente chego ao outside a felicidade da água salgada no corpo e da antecipação da primeira onda mistura-se com o insuportável movimento da remada e do take-off. Mesmo num mar próprio de "maçarro" o meu corpo, esquecido de mar, rejeita a facilidade e diz a tudo que não. Não há memórias musculares, movimentos infinitamente repetidos, que me salvem. Aquilo que a minha mente se entreteve a relembrar nestes meses de secura, de coisas da terra, não tem resposta no corpo. Nem a quase musculação de pesos leves de pegar na minha filha ao colo para arrotar, para adormecer, para passar as cólicas, nem o exercício de step de subir e descer três lanços de escadas, do quarto á cozinha, para fazer biberões, de três em três horas, nada tonificou o corpo, nada me permitiu manter uma réstia de condição física para as exigências do mais inócuo dos mares. Numa hora e meia de mar, não lhe vou chamar surf, apanho duas ondas dignas desse nome. Duas ondas, digamos, com princípio, meio e fim. Do resto, apenas patinhos exaustantes, remadas fatigantes, enrolanços e mergulhos. Mas, no fim, quando saio da água, com um sorriso moído nos lábios, penso no regresso a uma paixão primeira, penso na sensação única de plenitude que apenas o mar transmite, no sublime cansaço do corpo cheio de ondas e sei, não sem algum masoquismo, que é aqui que estou bem, que é no mar que devo estar. E, no outro regresso, o regresso a casa e à minha filha, penso que é essa paixão que lhe tenho que transmitir. E esse é todo o prazer que preciso.
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Publicado por pedroarruda em julho 6, 2009 11:45 PM | TrackBackO baixio da Vila devia tar a dar ...de certeza...
Afixado por: Luís em julho 7, 2009 10:58 PMDom Pedro eu vi-te, e não estavas assim tão mal, com um bocadinho de sorte daqui a uns 5 aninhos tens a Isabel a fazer-te saltar da cama para ires apanhar umas.... rsrsrs, votos que sim e um Abraço !
Afixado por: Perna em julho 8, 2009 11:36 AMBoas
Em primeiro parabéns pela paternidade.
Em segundo, o alivio por saber que não me sucede só a mim.
Em terceiro e para teu alivio a informação de que insistindo, vais-te reencontrar.
Abraço
Zé
Afixado por: zé em julho 8, 2009 06:29 PM