julho 16, 2009

Canção das estações


Miki Dora | Malibu | Leroy Grannis

...
Os primeiros dias da amizade
Levam sempre à gloriosa loucura do verão;
...

Eugénio de Andrade

No fundo, todos sabemos que o Surf é um desporto de Inverno. Pela mais simples e pura das razões, porque é da força que rege o Inverno que nascem as ondas. É na conjugação dos ventos e da superfície das águas que as ondulações se agitam no centro dos oceanos viajando até ao limite da terra. No entanto, toda a iconografia reporta-nos ao Verão. As imagens que criaram a mitologia dos desportos de ondas foram feitas de jovens em calções, praias de areia branca, palmeiras, biquínis e regiões tropicais. O sonho do Oceano Pacífico. O mais tropical de todos os Oceanos. É nesse sonho que o Surf nasceu e cresceu e perdura e conquista ainda hoje a mente de milhares de pessoas pelo mundo inteiro. Ao contrário do que vos dirá o historiador, o surf não nasceu no Hawai’i de há séculos atrás, ou noutro arquipélago distante no coração do Oceano Pacífico. Nem foi Duke Kahanamoku que exportou pelo ocidente a arte real de correr vagas. Não. Este surf, o surf que fazemos hoje, nasceu nas praias da Califórnia dos anos 50 e 60. A nossa génese foi aí e está devidamente documentada nas fotografias de Ron Stoner, Leroy Grannis, Bruce Brown e de Jon Severson. Essas são as nossas imagens formadoras e desses registos o que sobressaí é a mitografia de idílicas e quentes tardes na praia, em que grupos de jovens em calções e biquíni se juntam, com as suas pranchas e guitarras, sob o sol, à beira da água, sem qualquer sombra de preocupação ou drama, numa qualquer praia do sul da Califórnia. Esse é o nosso Surf. O Endless Summer.

Ainda hoje, o Surf que nos é vendido massivamente pelas revistas, pelos anúncios das marcas, pelos filmes, é o Surf sem temperaturas abaixo de 20 graus centígrados dentro e fora de água. Mesmo quando nos trazem notícias de novos picos na margem do círculo polar árctico ou anúncios de fatos isotérmicos com aquecimento incorporado, essas são apenas excepções para confirmar a regra dos trópicos. Uma nesga de frio é apenas para reafirmar a hegemonia do calor. O frio é uma aberração para a “filosofia” do Surf. Se olharmos bem para o que molda a ideia de Surf, o barro comum é feito dessa ideia de liberdade e descomprometimento que apenas o Verão tem. Tudo no surf é feito de temperaturas quentes e a epítome máxima desta ideia está no uniforme generalizado da tribo: um par de chinelos, uns calções e uma t-shirt. Surf no fundo é férias, não ter mais que fazer do que esperar pelas ondas. É este o nosso mito.

Mas, como todos os verdadeiros iniciados bem sabem, é no Inverno que vivem as ondas. É do arrefecimento que nascem os ventos que formam as vagas. Só no Inverno os surfistas se completam, perante as forças naturais, em luta com os elementos. É de Inverno que são feitas as grandes ondulações, os mares mais perigosos, a afirmação dos homens. O Inverno é que traz o selo da aceitação pelos pares. O Surf de Inverno é o primeiro ritual iniciático – o que separa os surfistas, dos que fazem surf. E essa distinção é ainda mais agravada pelo fosso cavado entre os que detêm as ondas e os que as anseiam.
O Surf de Inverno é feito de agrura, de dificuldade, de isolamento. Em tudo há uma espécie de individualismo exacerbado, uma quase misoginia. O Surf no Inverno é Surf de uma pessoa só. E nessa condição, apesar da bravura, a partilha e o seu prazer ficam impossibilitados. Ao contrário, o Verão é feito de comunhão. De combinação de alegrias. O Verão é feito de pequenos nadas, na antítese dos grandes feitos. No Verão o Surf é como um brinquedo nas mãos de uma criança, não só lúdico, mas ainda não totalmente imprescindível. No Verão o Surf é fugaz e transitório e nunca impositivo, como quando com a força majestática do mar de Inverno. No Verão o Surf é plural e aberto, nunca restritivo. No Verão o Surf é passível de ser oferecido.

É no Inverno que nos encontramos, lançando olhares vagos entre o horizonte e o interior, na antecipação do encontro com um mar que sabemos ser superior a nós. É no Inverno que afirmamos ser, na comoção própria das grandes ondas. Mas apenas no Verão podemos dedicar a outros a emoção do mar. O Surf é um desporto de Inverno porque no Inverno é que há ondas, mas pergunto-me se o Surf será apenas ondas?

Se no Inverno vivem as ondas com que cada surfista se completa a si próprio, não deixa de ser verdade que é apenas no Verão que conseguimos partilhar com outros, com aqueles de que mais gostamos, a imensa maravilha do gesto de deslizar nas ondas, e isso, só por si, é valido o suficiente para ser o Verão, também, uma estação de ondas. Regressemos a essas praias do Sul da Califórnia e contemplemos a hipótese de o Surf ser também parceria, amizade e conjugação de prazeres. Regressemos à nossa iconografia e a essas imagens idílicas, de águas quentes e ondas translúcidas, de calções e biquínis, onde a felicidade reside. Porque nem só de Inverno se faz o Surf.

Fenaiz da Luz, 21 de Junho de 09

publicado na FREESurf Magazine

Publicado por pedroarruda em julho 16, 2009 03:38 PM | TrackBack
Comentários

Amem!

Afixado por: Felipe Siebert em julho 16, 2009 05:08 PM

Gostei particularmente da forma como o autor descreve o Surf de Verão, sem hostilizar os surfistas que restringem a prática a essa época, ou aqueles que compram a prancha (ou a alugam) entre Maio e Setembro (e Setembro já é puxado, que o mar está a subir) apenas para experimentar. É um lugar comum entre a malta do mar (toda, não apenas surfistas) traçar uma linha que os separa do "banhista de verão". Ainda bem que resistiu a essa tendência, que em minha opinião em nada valoriza quem faz do surf não um episódio dos meses quentes, mas uma constante da sua vida, de Janeiro a Dezembro.

A foto do Miki Dora é muito bem escolhida para acompanhar o texto. Parabéns. O conjunto está magnífico.

Afixado por: Rui Silva em julho 22, 2009 12:16 PM
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